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Tenho um pouco de preguiça da Folha de São Paulo , acho meio pobre, meio Maria vai com as outras, e a tempos abandonei a leitura diária, no máximo passo o olho pela versão online.

Até que hoje o @vitorangelo, muso numero 1, postou a coluna do muso numero 2: Alcino Leite Neto, sinônimo de inteligência e educação. Morri um pouquinho, como me encanta Alcino! E já que estava ali, fui pro muso numero 3, Luiz Felipe Pondé, meu melhor professor, quase me reprovou, mas mesmo assim idolatro com toda força do mundo!

Vale ler, e saborear cada pedacinho de ironia e bom senso:

Fumar tornou-se hábito primitivo e sem lugar no Século 21

Acendo um cigarro. É horrível o aroma que ele exala. São infernais os males que produz.
Por favor, não fume. Fumar é hábito primitivo, sem lugar no século 21.
O fumante é um sujeito arcaico, um órfão ridículo dos romantismos modernos e das utopias malsãs, emparedado entre duas épocas.
Acabou a época em que fumar ajudava a viver a vida, feita de misérias incontornáveis, confrontos ideológicos sangrentos e paixões inúteis.
Vejo a foto dos soldados fumando no front inútil da Guerra de 1914, quando o hábito do cigarro se espalhou como peste. Vejo Faulkner e Kerouac, com o cigarro à boca, na inútil tarefa de fazer a literatura abarcar o mundo.
Era um tempo de urgências, pois a vida não valia grande coisa e não compensava medi-la na extensão, mas sim na intensidade dos atos, das palavras e das lutas.
Fumar significava suspender o tempo e criar um intervalo de bonança. Ou acelerar o tempo e sonhar, entre tragadas, que o futuro se precipitava sobre o presente, soprando revoluções.
Agora, fumar é anacronismo. Vivemos na melhor das épocas: os remédios corrigem os desesperos, as ideologias só propagam felicidades, a liberdade é problema da saúde pública. Fomos todos maravilhosamente “pervertidos pelo conforto”, como previu Rimbaud.
Acendo um cigarro.

Por Alcino Leite Neto

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A viúva e o cowboy

NÃO GOSTO de arte como ferramenta de cidadania. Uma palavra que, com o tempo, passou a me encher o saco foi “cidadania”. “Faixa cidadã” (faixa para motocicletas), “teologia cidadã”. Desta, então, eu não tenho a mínima ideia do que seja. Talvez (arrisco uma hipótese, toda minha, mas inspirada no que poderia ser a defesa da “cidadania bíblica dos gays”), seja uma releitura da Bíblia a partir da “Queer Theology” (“teologia bicha”)? Ou seja, quem sabe Jesus e seus discípulos formavam uma comunidade gay e a traição de Judas teria sido uma crise de ciúmes porque Jesus preferia “meninos” como João. Humm… Tem mais: “Pedagogia cidadã” (seria: “Não reprove ninguém, respeite os direitos dos alunos não saberem nada da matéria e permitam que eles construam as avaliações coletivamente”), ou “geografia cidadã” (no lugar de ensinar a localização dos países na aula de geografia, obrigue os alunos a saberem de cor a gloriosa história do sindicato dos boias-frias), ou “sexo cidadão” (deve ser sexo sem invadir a intimidade do/a outro/a!!). Nem o coitado do Rousseau (e seus tarados jacobinos), que amava a humanidade, mas abandonou os filhos e a esposa, imaginou que levassem tão longe seus pobres delírios em suas caminhadas solitárias. E o pior é a história do “voto cidadão” e “a festa da democracia para a qual o título é seu convite”. Sou obrigado a votar e ainda chamam isso de “direito cidadão”. Quer saber? Deixem-me em paz e não me obriguem a votar. Acho que o voto deveria ser facultativo no Brasil, como é na maioria dos países civilizados do planeta. Mas eu dizia que não gosto desse negócio de arte como ferramenta de cidadania. Por quê? Porque faz da arte coisa de retardado. Antes de tudo, nada contra o uso de arte nas escolas. Mas, é claro, a maioria de nós (incluindo a mim mesmo que não sei desenhar nem uma casinha) não é capaz de qualquer arte. Este papo de que “todo mundo tem uma competência que lhe define” é conversa mole de pedagogo de autoajuda. Melhor logo dizer que o universo conspira a favor de todos os alunos e que basta se concentrar que você vira Da Vinci ou Shakespeare. A história do mundo, seja ela artística, política, econômica, social ou científica, sempre foi feita por alguns poucos seres humanos. A maioria nunca fez nada além de tocar sua vidinha medíocre e continua assim, afora a “publicidade cidadã”. Num sábado de preguiça, eu e minha bela esposa assistimos na TV a um filme de cowboy, desses antigos nos quais homem é homem e mulher é mulher (que saudade…), com James Stewart, Rachel Welch, Dean Martin e George Kennedy chamado “O Preço de um Covarde”. Nada deste papo furado de “filme cidadão”, onde as mulheres lutam com espadas para provar que são iguais aos homens (ou melhores do que os homens), ou heróis se emocionam diante de uma lagartixa em agonia ou lutam em favor de um país africano onde todo mundo é santo, menos os brancos interesseiros. Enfim, essa arte com compromisso social é sempre lixo. O filme apresenta a vida como ela é: sem coerência, sem roteiro moral prévio, submetida ao acaso desarticulador de toda esperança vã. Rachel Welch é uma recém-viúva milionária. É pega como refém pelo bando de Dean Martin, condenado à forca, mas que é salvo pelo irmão James Stewart. Este é um homem generoso que busca salvar seu irmão não só da forca, mas do desencanto com a vida que o levou ao crime. George Kennedy, xerife da cidade e apaixonado por Rachel Welch, é um homem honesto e virtuoso que irá corajosamente à caça do bando. Dean Martin encontra na inesperada paixão entre ele e Rachel Welch o motor suficiente pra fazê-lo escutar o conselho de seu irmão: “Deixe a vida criminosa e vá fazer uma família”. O xerife, quando consegue prender o bando, pede a mão da bela mulher, mas ela recusa, ainda que ele seja honesto e devoto a ela. Ela prefere o criminoso. Este, em claro processo de redenção, acaba morto (junto com seu irmão), destruindo toda a esperança. Qual é a moral dessa história? Nenhuma. Ou, arrisquemos uma: a vida é cega.

Por Luiz Felipe Pondé