Quando li Origem de Thomas Bernhard (escritor austiraco do séc XX) senti uma imediata sinergia: sua demolição das lembranças infantis e adolescentes me tornou um irmão seu. Não guardo nenhuma sensibilidade especial pelo passado. Minhas lembranças de infância são quase insgnificantes, as amizades, um dia essenciais, se apagaram. Talvez eu seja um homem sem alma. Talvez minha alma seja constituida do tipo de substância inútil e efêmera da qual são feitas as cinzas. Com isso não quero dizer que não tenha mágos ou lembranças. Sou banal. Quero dizer que, quando olho para trás, vejo sombrasnum deserto sem apelo emocional. Claro, fiz análise por anos. Talvez os análistas digam, a partir de sua ciência de anatomistas das almas, que tenho problemas. Sim, tenho muitos. Mas não chorei a morte dos meus pais. Deve haver amor em algum lugar da casa em que vivi quando criança. Mas não sei onde. Sei, sim, que havia (e há) falta de ar.

Luiz Felipe Pondé