Ela estava sentada em sua poltrona de estofamento marrom escuro. Janelas fechadas com pesadas cortinas, pernas cruzadas, calça de cintura alta, longos colares de pedras beges. Fumava um cigarro seguido do outro e despejava as cinzas em um pesado cinzeiro de cristal. Tudo isso, junto a sua silhueta longilínea transformava uma simples tragada em uma dramática cena.

Havia sido abandonada. Há alguns meses, seu marido e companheiro de 20 anos a trocou pela secretária. Riu muito na época. Sua vida sempre tão contida e cheia de mesmices particulares virara um grande clichê.

Passou a dormir poucas horas, o que lhe deu profundas e lindas olheiras que combinavam com seu espírito conformista, eram a representação de um ego ferido.

Atendeu o telefone. Era sua melhor amiga.

– Estarei ai em 15 minutos.

E desligou. Héstia sempre fora assim, ríspida, direta, uma mulher de poucas palavras e grandes atitudes.

Ao chegar abriu as cortinas, afastou o cinzeiro da poltrona e ficou aguardando.

– Chega.

Ela levantou os olhos e respondeu com sua voz rouca.

– Vai acabar quando eu quiser que acabe.

– Já faz 6 meses, você é melhor que isso.

– Nunca pensei que não fosse.

– O que você está fazendo então?

– Sofrendo.

– Desde menina esse apego com a tragédia …

– Aprendi com a biblioteca das moças.

– Falou com ele?

– Não tem o que falar.

– Sempre se tem o que falar, nem que sejam palavras ruins.

– Estou cansada de palavras ruins.

– Ele te ama, é só uma crise de meia idade.

– Não me importo.

– Então se levanta.

– Não quero me levantar.

– Porque?

– Porque acabou.

Assim que proferiu essas duas palavras, desmaiou. Em busca de um telefone Héstia encontrou os frascos de pílulas vazias. Sentou-se e discou calmamente, primeiro para a emergência. Depois pra ele.

– Ela se matou.