Caio tinha um lado bom, é claro, como qualquer outra pessoa. Mas o lado bom ficava escondido, tão escondido que algumas pessoas não acreditavam que existisse. Tenho a impressão de que nem ele mesmo acreditava neste seu lado bom. Para mim, essa poderia ser a causa de sua dor. O Caio queria ser uma pessoa boa. Mas não conseguia. E parecia dizer aos bons “eu vos perdoo, vocês não sabem o que fazem” Os maus odiavam essa ironia. Espelho, espelho meu. Ter ódio do Caio era a maior prova de mau-caratismo que se poderia dar. Isso explica aquele sorriso. Quem conheceu o Caio sabe de que sorriso estou falando. Aquela ironia que escapava pelo sorriso, escondida entre palavras bondosas. Caio apunhalava as pessoas pelas costas e depois o acusava de o apunhalarem. E fazia isso com uma categoria, com um desespero que parecia que ele era Jesus Cristo e falava exclusivamente em nome do bem. A favor de Caio eu tenho a dizer que ele respeitava profundamente a literatura. […] Eu aceito os defeitos de Caio, fui muito intimo dele e acho que é por isso que consigo ver este lado odioso que ele tinha. Por outro lado, eu reconheço as qualidades de Caio porque não sou louco nem nada de ir contra seus mais profundos desejos. O Caio era foda. Que Deus o tenha, se aguentar.”

Essa é uma das muitas descrições feitas sobre Caio Fernando Abreu no livro Para sempre teu Caio F. da Paula Dip.

E ainda fico assustado como o quanto me pareço com ele.