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Caso não tenha assistido Les Amours Imaginaires, filme canadense de Xavier Dolan e tenha pretensão de fazê-lo peço que pare a leitura desse texto agora.

Se optar por seguir, ira entender o que quero dizer, mas saberá o final do filme pois é ele quem comprova meus sentimentos:

A trama gira em torno de Marie e Francis, que conhecem em uma festa Nicolas, um jovem recém chegado a cidade.

Imediatamente ambos desenvolvem um amor profundo, angustiante e melodramático pelo belo e sexy rapaz.

Entre cenas paradas, que abusam de filtros e muitos cigarros, Marie resolve enviar um poema para o rapaz, falando tudo que sentia. Francis em contra partida se declara pessoalmente.

Ambas cenas são de uma delicadeza e tristeza profunda, em parte pelo resultado, em parte pela expectativa desse resultado.

Transcorro agora ambos os diálogos, pela simplicidade, beleza e precisão:

Francis

Temos que conversar

Não, você sabe sou uma pessoa que…

Não, eu … gosto de estar com você

Sinto…Me sinto bem, sim, gosto de estar com você

Certo. Imagine, imagine digamos, que temos um amigo, e ele conhece um rapaz.

Ele conhece um cara legal, engraçado, charmoso, bonito claro!

Ele é inteligente, ele é culto. Mente aberta. Tanto que você pensa “uau ele é tão mente aberta”. Você fica tocado. É o que te seduz, é o que te toca. Ele toca você. É terno e divertido.

Digamos que você conheça esse cara legal. O que você faz?

Eu te amo

Eu realmente quero te beijar

Não sei porque estou te dizendo isso

Não, é só que… é o fim da queda

Preciso começar a criar laços

E seria mais simples se… se houvesse alguém.

É mais simples se houver alguém

Também não te contei sobre as minhas marcas, como… Cristo!

Robson Crusoé. Eu coloco uma marca.. você sabe, quando…alguém me diz: “Não, obrigado” “Não, obrigado, não estou interessado” Sempre que isso acontece acrescento uma pequena marca. Mas agora estou ficando cansado disso.

Elas me ajudam a desencanar. Entende o que quero dizer?

Então…Você? Fale algo.

Nicolas

Como pode pensar que eu era gay?

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Depois de um longo discurso justificando o envio da carta, dizendo que haviam sido trocadas, mesmo tendo ouvido de Nicolas que ele tinha pressa por ter deixado uma comida no forno, Marie toma coragem e pergunta:

O que você diria se.. eu tivesse enviado o poema para você?

Em resposta, ouve de Nicolas

Diria…que ainda tem algo no forno

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Sempre percebi Nicolas como o vilão da história, todos tivemos inúmeros Nicolas, figuras charmosas, sexy, conquistadoras, que mesmo sem fazer nada se tornam apaixonantes. Algumas vão além: te envolve em um emaranhado de emoções, como quem nada quer e que precisa da bajulação constante para ser quem e o que é.

Até que ontem, uma amiga me falou: Iran, lembra da cena em que ele diz que ainda tem algo no forno? Então.

Nicolas poderia ter respondido a Marie evitando o triste encontro, poderia ter respondido “eu diria que fiquei lisonjeado, que gostaria de poder retribuir seu poema, mas, não é possível” poderia ter falado “desculpe se passei a impressão de ser gay, mas gosto muito da sua amizade”. Mas infelizmente os Nicolas da vida não sabem lidar com o sentimento do outro, pois para manter uma vida de charme, sexualidade e conquistas é preciso muito mais narcismo do que amor.

Tenho passado os últimos anos nesse conflito, onde Nicolas surgem e ressurgem, e tenho a impressão que assim como no filme, a vida se limita a Nicolas que estarão sempre bem enquanto forem cultuados e Maries e Frances que estarão sempre dispostos a sofrer esses amores imaginários, como na ultima cena, em que se apaixonam novamente por um novo Nicolas na figura de um espetacular Louis Garrel.

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