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Todo mundo já passou pela situação de encontrar um velho amigo e de repente perceber que não tem mais absolutamente nada a ver com aquilo que você se tornou. Essa é uma das sensações mais estranhas e libertadoras que alguém pode passar e em geral demonstra o quanto você amadureceu.

Mas existe um outro momento similar e muito mais doloroso: a ruptura com a família. Tenho experimentado o distanciamento paternal há anos mas só agora percebo brutalmente longe. Não me leve a mal, minha família e seus 200 desdobramentos serão sempre parte importante na minha vida mas cada vez mais percebo que nada tenho a ver com quem me criou.

Já passei da fase de revolta adolescente e mesmo assim me encontro preso no meu quarto aos finais de semana, meus valores, referencias e crenças são outras e mal consigo manter um dialogo sem começar uma discussão. Não concordo com aquelas vidas tanto quanto eles não concordam com a minha e por isso percebo cada vez mais uma necessidade de não ocupar o mesmo espaço físico que meus pais.

Mas não é fácil, estou habituado a viver em uma confraria e a sensação de estar querendo algo errado insiste em me perseguir. É difícil entender as angustias cotidianas como apenas isso, angustias cotidianas e não desamor. Minha família carrega drama, e eu, não nego, o reforço e me tornei com o passar dos anos uma figura amarga e até mal educada, mas repito, não por desamor e sim por me ver obrigado a conviver com tantas coisas que discordo.

Entender essa tênue linha entre desacordo e desamor é o que falta para que eu tenha uma saída de casa minimamente tranquila, pena que não percebo nem sinal de que deve ocorrer tão cedo. Me resta portanto tomar uma decisão que talvez comprometa minha relação familiar por um bom tempo, afinal como boa família italiana a minha é especializada em praticar a magoa, uma pena, tendo em vista que os laços são tão fortalecidos e magoa tende a desgastar relacionamentos.

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