Etiquetas

, , ,

Tenho um amigo que converso quase que diariamente nos últimos meses, e é sempre o mesmo processo: primeiro fazemos uma atualização do que aconteceu no dia, depois falamos das magoas e finalizamos com uma longa conversa sobre algo que discordamos.

Esse exercício de debate me faz extremamente bem e funciona como uma espécie de terapia e reunião de pauta para o blog e no ultimo sábado o tema foi: o que é modismo e o que é amadurecimento.

Falando assim parece um tema bobo, mas ele tem sua complexidade. Em um mundo tão cheio de referencias o que é absorção do que se consome para fazer parte de um grupo e o que é parte de você realmente é, se tornou algo extremamente subjetivo.

Entre os pontos abordados estava estilo, moda e música.  Sempre fui esse emaranhado de referencias e tenho praticamente zero preconceito ao se falar de estilo e música. Na moda me incomoda bastantes coisas pobres e cafonas mas ainda sim lido bem com a diversidade.

Durante a conversa um dos exemplos citados foi a onda tecnobrega, fiquei em dúvida se aquela conversa não era sobre mim, até que surgiu a seguinte frase: sei que você gosta genuinamente, não é esse povo que nunca pisou fora de São Paulo e diz que AMA tecnobrega. nem sabe onde é o Pará, sabe?

Entendi o que ele quis dizer mas ainda temos o ponto: como saber quem gosta de algo genuinamente? Moro em um bairro periférico, não é uma favela mas é periférico e estudei próximo a 12 de Outubro, uma rua de comércio popular da Zona Oeste de São Paulo e sempre fui habituado ao ouvir o Eletrobrega e suas vertentes: calypso, arrocha entre outros. Tomei gosto e com 15 anos comprei meu DVD do Calypso na Amazônia, um dos preferidos até hoje.

Agora vamos lá: hoje gosto do som pois tive aproximação com ele mais cedo do que a maioria dos paulistas, e sei os méritos e deméritos do estilo musical, porém isso faz com que alguém que teve contato com o ritmo por conta da Banda Uó que casou o eletrobrega com a estética hipster e letras desbocadas seja menos genuíno?

É muito difícil fazer esse julgamento até internamente, me perguntei quase que diariamente por alguns anos se tinha algo errado comigo. Todo mundo está sempre tão surpreso com o fato dos meus gostos serem tão dispares que demorei a perceber que só segui um caminho menos habitual para construção da minha identidade.

Em geral as pessoas tendem a esconder coisas que consideram ruim ou que acreditem que vá afetar a percepção do mundo sobre si e eu nunca fiz isso, tendo a falar o que passa na minha cabeça e admitir meus gostos, o que atrapalha meus relacionamentos afetivos mas facilita minhas relações com amigos e no ambiente de trabalho.

Não digo que esse é um processo exclusivamente meu, pois o tenho percebido nos conhecidos com bastante frequência e acho que ele ilustra e define muito a minha geração: não somos apolitizados ou politizados, cultos ou incultos, pacíficos ou violentos, somos tudo isso, somos uma geração composta de uma busca pelo meio termo e pela aceitação de que se pode gostar de tudo.

Fala-se muito sobre sexualidade e um futuro pansexual em que gênero vai se perder, mas esquece-se desse processo de identidade apenas, hoje o preconceito não se resume a orientação sexual, vai além, se estende a forma pela qual a identidade é formada e seu resultado, onde o preto e branco se desdobrou em um arco-iris o que incomoda muitos.

Por isso diariamente me exercito: avalio meus gostos, ações e principalmente minha percepção sobre o outro, sempre evitando qualquer tipo de preconceito, não é fácil, mas é infinitamente melhor do que fazer algo por que todo mundo faz ou julgar e me afetar pelo que o outro é.

Anúncios