Ela se levantou, tomou um breve banho, penteou os longos cabelos, se trocou e saiu porta a fora. Chegando no metro se deu conta que havia esquecido o fone de ouvido no apartamento, imediatamente entrou em pânico ao perceber inconscientemente que teria de fazer o trajeto até o trabalho apenas na companhia dos terríveis pensamentos que a assolava nas ultimas semanas.

Faziam exatos 27 dias que vomitava quase que diariamente em uma espécie de exorcismo do que lhe acontecera sem obter nenhum êxito. Tudo doía exatamente como a 27 dias. Curiosamente não conseguia descrever o que sentia ou sentira, ficava ali apenas entorpecida, perdida.

De repente se viu diante de uma pichação na porta do vagão, “minha alegria é triste” em letras mais garrafais do que se esperaria de uma frase tão delicada e de referencia tão senhoura. Olhou para o braço direito, um pouco acima de onde se colhe o sangue para exames rotineiros e identificou a mesma sentença cantada por Roberto Carlos transcritas como que em máquina de escrever. Então fechou os olhos e esperou a chegada de sua estação.

Trabalhou sem muito entusiasmo até as 20h pois gostava de estender a jornada visando ter um folga no abarrotado transporte público da caótica cidade. Ao chegar em casa trocou a roupa por um confortável moletom e abriu uma garrafa de vinho que tomou ouvindo uma serie de delicadas musicas em um ritual tão confortável que fazia com que se perguntasse porque não o repetia com mais frequencia. Adormeceu.

No dia seguinte repetiu quase que catolicamente a rotina aguardando temerosamente a chegada do final de semana. Na sexta feira permaneceu ate as 22 e passou em casa apenas para uma ducha e seguiu direto para a rua Augusta. Encontrou alguns amigos que mal importavam o nome, apesar de conhecidos a alguns anos não representavam muito, eram fontes de pontuais risadas mas nada mais que isso. E bebeu, bebeu tudo que poderia sem perder a consciência. Alguns rapazes se aproximaram mas todos bons rapazes, nunca tivera apreço por bons rapazes e na perspectiva de retornar sem companhia jogou um charme preguiçoso para o barman com quem já fodera duas ou três vezes.

Acordou sozinha entre lençóis meio sujos e mais entorpecida recolheu a roupa de cama e colocou para lavar, pediu uma porção de bolinhos de arroz no Ritz e o menor lanche mesmo sabendo que seria incapaz de come-lo por inteiro. Com o resto da tarde livre foi as compras, coisas corriqueira e inúteis; alguns livros que não leria, uma corrente que seria sua preferida por alguns meses e uma saia longa como as que usava sempre. Voltou por volta das 18 e adormeceu quase que instantaneamente, as 3 se levantou, escovou os dentes, pegou a bolsa e desceu ate a Bella Paulista onde comeu uma salada de frutas e um pão com queijo branco. Voltou para o quarto e buscou na pilha de papeis da escrivaninha o livro que lera pela metade. Adormeceu.

Domingo enviou uma mensagem para a amiga com quem tinha combinado uma cerveja no fim da tarde sob o pretexto de cólicas e começou a baixar mais um episódio da série medica norte americana que com um mecanismo cirúrgico a fazia chorar por alguns minutos. Pegou o telefone e pediu uma salada simples do Insalata e voltou para a cama onde ficou ate o corpo doer e saiu apenas para a checagem diária do Facebook que demonstrava o quão entediante todos continuavam. Não jantou e dormiu mais pesadamente que se esperava até que se levantou, tomou um breve banho, penteou os longos cabelos, se trocou e saiu porta a fora.

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