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“O PÁSSARO-DO-SOL”

Minha filha mais velha, Holly, me disse exatamente o que queria ganhar no seu aniversário de 18 anos: “É uma coisa, papai, que ninguém mais pode me dar. Quero que você escreva um conto pra mim”. E então, como ela me conhece bem, acrescentou: “E eu sei que você sempre se atrasa, e não quero que fique estressado nem nada, então, contanto que ele fique pronto até o meu aniversário de 19 anos, não tem problema”.

Havia um escritor de Tulsa, Oklahoma (falecido em 2002), que foi, por um curto período no fim da década de 1960 e início da de 1970, o melhor escritor de contos do mundo. Seu nome era R. A. Lafferty, e suas histórias eram incríveis, estranhas e inimitáveis — logo na primeira frase, você já sabia que estava lendo um conto de Lafferty. Quando eu era jovem, escrevi para ele, e ele me respondeu.

“O Pássaro-do-Sol” foi minha tentativa de escrever algo à Lafferty, experiência que me ensinou várias coisas, sobretudo que criar esses contos é mais difícil do que parece. Holly não o recebeu até completar 19 anos e meio, quando eu estava trabalhando em Os Filhos de Anansi e cheguei à conclusão de que, se eu não terminasse de escrever qualquer coisa que fosse, provavelmente ficaria louco.

Esses 3 paragrafos fizeram com que eu me apaixonasse pelo Neil Gaiman. Não sou muito afeito a contos, mas em épocas de cabeça tumultuada e falta de tempo estou optando por textos mais curtos que tem caído muito bem.

Descobri Coisas Frágeis ao acaso, em uma das andanças por livrarias e só em casa percebi que o autor era responsável pelo cultuado (mas pra mim desconhecido) quadrinho Sandman. O que me chamou atenção foi o desenvolvimento gráfico da contra – capa e a belíssima capa.

A fragilidade de Gaiman está na sua temática, seus contos caminham pelo universo fantástico, não esse dos super heróis e mundos encantados e sim pelo imaginário. As histórias são protagonizadas com uma naturalidade assustadora por crianças mortas, seres extra – terrestres, assassinos pedófilos, os meses do ano e até um investigador a lá Sherlock. No prefácio o autor conta o porque daqueles contos; alguns encomendas para coletâneas temáticas, alguns prévias para livros e outros, como O Pássaro-do-Sol, solicitação da filha.

Ler algo do inglês é um exercício delicioso de experimentação, é se sentir emocionado com diálogos simples. Contextualizações tão bem feitas que te colocam dentro daqueles momentos. Uma experiência que fica ainda mais rica quando se descobre o porque daquela história. Nos 3 primeiros paragrafos deste post é possível notar a aptidão de Gaiman que emociona ao falar de algo tão lindo quanto o pedido de sua filha, recomendar um autor que admira (mais de um na verdade) e falar sobre seu processo criativo.

E claro, não pude deixar de pensar: será que um dia terei o prazer de pedir algo tão particular e lindo quanto um texto, uma música ou uma pintura? Espero que sim! Acho que depois do Gaiman nunca me sentirei completo sem algo do tipo.

Ps: para os pacientes leitores digitais encontrei a versão online aqui pra baixar 🙂

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