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Passei dias desses por uma delicada situação sobre o “politicamente correto” com direito a mensagens me chamando de pé no saco e tudo.

Quero deixar claro que entendo quando as pessoas falam que o politicamente correto é um porre, concordo plenamente e acho que muitas questões é apenas isso: a politicagem do parecer correto, porém existem uma linha entre o politicamente correto e questões moralmente corretas.

Temos aqui que lembrar que moral e correto são dois termos e conceitos relativos, pontos particulares. Porém vivemos em sociedade e em alguns momentos a moral irá ser comum a todos: historicamente matar, roubar, estuprar e outras tantas ações negativas foram consideradas erradas e isso é geralmente indiscutível.

Levando essa discussão para o nosso dia a dia não posso deixar de citar o caso do suposto estupro no BBB, assunto já velho, mas que me marcou profundamente: na época rendeu a maior limpa no meu perfil no Twitter onde deletei coisa de 40 perfis, a maioria de mulheres que fizeram piadas com o tema.

Para mim piada sobre estupro NUNCA será piada, será apenas algo moralmente incorreto, não é política, é valor. Daquele momento em diante passei a olhar com novos e tristes olhos a forma como a mulher é tratada na nossa sociedade, amigas engajadas ganharam ainda mais meu respeito e pela primeira vez entendi o que elas sentiam e seus posicionamentos tão enfáticos.

De lá pra cá mais quatro acontecimentos me levaram a debater abertamente questões relativas ao preconceito: o curso Bitch da Perestroika que já falei aqui, uma matéria ensinando as mulheres a fingir orgasmo na revista Nova, a publicação de uma foto com um texto racista pela Vice e um post em um dos blogs da revista TPM falando sobre a popularização dos batons Mac. No caso do curso acho que já disse tudo a ser dito: foi uma sucessão de erros imagéticos e de linguagem que desqualificaram o projeto o tornando preconceituoso.

Ai temos as publicações, meu maior problema atualmente:

Revista Nova – bom, não preciso nem falar, este post já diz quase tudo e sinceramente acho que não tem mais solução, o formato é antigo proveniente de uma organização extremamente amarrada, talvez melhore quando a migração da publicação para o online for iminente o que deve levar algumas décadas, isso se acontecer.

Revista Vice – admito nunca ter sido um grande admirador da publicação, composta de um humor muito americano e consequentemente de valores americanos não me identifico mas gostava do conceito “ultrapassar a barreira do politicamente correto” o problema é que de alguns meses pra cá a barreira rompida foi a da moral, o texto sobre a semana de moda Plus Size paulistana não passava de um emaranhado de preconceitos contra gordos e o post sobre “comer uma negra nem que seja no fundo de uma bodega”, bom, não tem o que falar certo? A Vice pelo que vi não se posicionou em nenhuma das duas questões e apenas reformulou minimamente tentando em tão suavizar o texto e deletou a segunda postagem, o que desqualifica ainda mais a publicação, mostra falta de ética e de coragem, se publicou porque não defender seu conteúdo?

Por fim temos a revista TPM: apesar de não ser o público alvo sempre acompanhei a publicação, tenho bastante admiração pela revista mãe, a Trip. A edição sobre sexualidade foi uma das coisas mãos lindas que li na vida, porém ambas sofrem de um mal muito grande que comumente chamamos “teto de vidro” onde criticam enfaticamente algumas questões e simultaneamente as incentiva, o maior exemplo: o posicionamento anti – machista da Trip que publica mensalmente ensaios sensuais de mulheres, a objetificação do sexo feminino. A TPM peca um pouco menos, porém o faz. Uma amiga no dia que critiquei publicamente a revista me mandou um tweet mto interessante, algo como: Sabe o que me incomoda na TPM? Ela de diz tão engajada, mas não retrata nenhuma mulher que não seja magra. Entendi o que ela quis dizer, mesmo engajada a TPM não foge dos padrões retratando outras figuras que não seja a imposta pele sociedade e pelo padrão estético inalcançável: a mulher magra, linda, multitarefa e bem resolvida sexualmente.

Durante a semana o tal post no blog da revista reclamando da banalização dos batons MAC suplicava para que Globo parasse de usá-los em suas protagonistas das novelas das 21h em um texto ingrato, novamente sob o pretexto do humor: construção errada, vocábulo errado, plataforma errada.

Era um blog de tendências criticando, veja bem, uma tendência por ser tendência, não por ser feio, não por ser mal construído, apenas por ser tendência, e pior, trazendo a tona um preconceito velado ao pobre e popular. Neste caso houve um posicionamento da própria blogueira, educada, como acredito que seja, teve o bom senso de numa mea culpa admitir o erro. Pena que só mea culpa, por que aquele texto não foi apenas mal escrito, foi mal pensado e principalmente amoral, reflexo de uma redatora de valores muito distintos do meu.

Acredito seriamente que em todas publicações que citei profissionais éticos e de valores similares ao meu estejam presentes e constrangidos pelas matérias citadas, inclusive conheço e admiro alguns deles e entendo que nem todos tem a sorte de trabalhar em um local em que está alinhado moralmente com a organização, mas recomendo: pelo menos não tome partido do que está errado: o que cala consente, o que se pronuncia incentiva.

Voltamos enfim ao pé no saco: no mesmo dia que debati publicamente no twitter a questão da TPM alguns amigos discordaram ou concordaram comigo pela própria plataforma, outras três, especificamente mulheres, concordaram comigo pessoalmente mas disseram preferir não falar nada no twitter, uma opção delas que entendem que o publicar uma opinião em 140 caracteres é gerar controvérsia, o que de certa forma é verdade: ao de debater temas tão complexos em um espaço tão pequeno e possível transformar o debate em uma mera busca de briga – o que não é o caso. As manifestações preconceituosas estão on line, sendo disseminadas pelo Twitter, portanto, não vejo o porque não responder no mesmo meio e quando complementado em profundidade como tentei fazer neste post do reforça a minha critica que espero sinceramente gerar o mínimo de reflexão.

No fim das contas,  é preciso um balanceamento, não uso meu perfil apenas para bandeiras,  mas nunca vou evitar de levantá-las mesmo quando chamado de pé no saco.

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