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Passei por uma situação que há tempos não passava: o desconforto do contraponto extremo.

Sexta – feira fui a um aniversário de uma amiga com quem fiz faculdade em Alphaville, cidade (ou mega bairro, não sei ao certo) de moradores com alto poder aquisitivo e foi uma delicia: amigos antigos, conversas e até algumas cervejinhas. Ao retornar a São Paulo uma ida por meia hora a rua Augusta acompanhado por uma das amigas da turma. O que não esperava era que esse curto espaço de tempo traria a tona tantas questões.

A amiga desacostumada a sair do espaço cotidiano esboçou uma variedade de reações que iam de medo ao nojo em um grau de desaprovação altíssimo.

Não a critico, sempre soube que vive em uma bolha (ela inclusive tem essa consciência) e se chocou em se ver no centro de outra bolha, composta da extrema oposição de sua vida.

De inicio achei até divertido: uma daquelas situações de reality shows em que pessoas trocam de família buscando novas experiências porém o que a edição da TV não mostra é o preconceito causado pelo desconforto de presenciar uma cultura diferente e que está danificando as nossas habilidades de aprender.

Dentre tantos termos filosóficos um me marcou muito: Aporia – expressão cunhada por Aristóteles para definir basicamente um conteúdo contraditório, onde idéias conflitantes, dúvidas e perguntas baseiam um dialogo, pensamento ou ideia sem respostas.

Sem respostas. Esse é o ponto principal da aporia e que falta a nossa sociedade: passamos por um processo de guetificação do mundo onde nos fechamos em núcleos específicos limitando o convívio a pessoas de ideais e valores semelhantes.

O processo de guetificação é natural, o dialogo flui melhor e as relações se estreitam com mais facilidade quando lidamos com figuras semelhantes, mas em contra partida empobrece a construção do nosso caráter e impede o enriquecimento que o convivo com diferentes nos trás.

Dia desses um amigo falou: “estou muito feliz com o namoro desde que não falemos de política, religião, esportes ou comportamento”. Ri mas pensei o quanto ambos estão perdendo naquela relação, o que os torna especial como um casal é o fato de terem opiniões distintas e supostamente se complementarem ou aprenderem um com o outro.

Estamos presos a busca de respostas, de conforto e de soluções quando na verdade precisamos é buscar o amplo, pensar no coletivo e analisar o que podemos realizar como indivíduos e sociedade.

Obviamente esse relacionamento com o diferente trás a tona questões morais: como conviver e entender o que você considera eticamente errado?

A amiga do começo do texto é o que chamamos comumente de “patricinha”, de alto poder aquisitivo, valores que envolve a conquista de luxos e qualidade de vida. Vive no Jardins (bairro “nobre” de São Paulo) e pretende complementar os estudos e morar fora do país. Em meio a ela inúmeros amigos e amigas que fumam maconha, tomam um doce esporadicamente, consomem álcool em grande quantidade e fazem uso de anti depressivos e remédios para emagrecer e ficou chocada e criticou veementemente o grupo que povoava o bar em que estávamos pelo uso de uma droga que foge do seu grupo e do comportamento mais sensorial deles.

O tal grupo era composto de chamados “alternativos” são artistas plásticos, músicos, DJs, gente da área de comunicação e ciências políticas que se reúne para tentativas de práticas culturais. Se juntaram e criaram uma espécie de coletivo que começou com festas ilegais e hoje conta com espaço próprio no centro velho de São Paulo. Em geral consomem cocaína, droga que está em voga novamente fora a maconha, doce, bala e remédios. Ali é tudo mais excessivo, a flor da pele, talvez a veia artística faça com que as relações sejam mais sensoriais e a relação com o sexo mais aberta. São basicamente novos hippies.

O que a amiga patricinha não percebe é que aquele grupo não está tão distante dela: existe grande chances de que tenham estudado no mesmo colégio ou faculdade, que tenham ouvido as mesmas coisas de seus pais e que querem as mesmas coisas: entretenimento, felicidade, amor, sucesso financeiro e assim por diante e apenas estão buscando tudo isso de forma diferente.

Não gosto da maconha dos mauricinhos ou da cocaína dos alternativos. Não gosto da homofobia dos mauricinhos e gosto da liberdade sexual dos alternativos, gosto da organização e da responsabilidade dos mauricinhos e não gosto da vida excessivamente de celebração e descomprometimento dos alternativos. A questão aqui é que em ambos os grupos tenho pontos que gosto e desgosto e evito ao máximo análises morais sobre eles mas percebo muita dificuldade nas pessoas em fazer o mesmo.

Hoje mais do que nunca é necessário prestar atenção no outro e buscar o que de bom existe ali porque do contrário nos tornaremos mais sexistas, preconceituosos e daí para novos processos de eugenia extremistas como a nazista é um pulo.

É, foi apenas meia hora, mas talvez a meia hora que gerou mais reflexão na minha vida.

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