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Coisa de um mês atrás o namorado de um amigo (e consequentemente amigo meu) contou para os pais que era gay, esse final de semana o mesmo aconteceu com um dos meus melhores amigos e a reação dos respectivos pais foi a mesma assim como a de muitos outros casos que ouvi.

A “saída do armário” raramente é fácil, são raros os casos em que não existem conversas tristes, preconceitos, temores e muitas palavras e atos que te marcam por muito tempo.

E por isso resolvi escrever este post, dividido em duas partes, uma dedicada aos pais e outra aos filhos homossexuais e espero que de alguma forma ajude alguém.

Começo me dedicando aos filhos, parte pela identificação, parte por saber que é bem foda passar por isso e como é difícil achar informações do que fazer nessa hora.

Contar ou não contar?

Como tudo que envolve a questão de sair do armário não existe regras e o conselho aqui não poderia ser mais clichê: fale quando estiver pronto, você pode ter 13, 15, 20, 30, 50 ou 80 anos, nunca vai ser fácil falar então é bem importante que você esteja seguro sobre o que está fazendo.

São raros os pais que tem conhecimento sobre homossexualidade, eles podem ter amigos, conhecidos e até algum parente gay mas é diferente ter um filho e nessas horas incontáveis preconceitos vem a tona então vale ler bastante para ter as primeiras conversas. Gosto muito dessa matéria da revista Superinteressante que apesar de antiga (2006) cobre bem didaticamente o que é homossexualidade tanto do lado psicológico quanto pelo cientifico, passando por um breve histórico da coisa.

Fora a matéria tem uma série de livros sobre o tema, um dos mais conhecidos é o “Mãe sempre sabe?” da Edith Modesto criadora de um grupo de apoio a pais de gays, lembro que vi uma entrevista que contou que demorou muitos anos para aceitar o filho mais novo e só a partir daí foi que criou o grupo

Tratando a homossexualidade de forma mais cotidiana o livro do André Fischer, “Como o mundo virou gay?” e as publicações sob sua batuta como a Junior, H Magazine, o portal Mix Brasil e o Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual são ótimas referencias e de forma mais política mas não menos cotidiana temos o Blogay do Vitor Ângelo.

Fora tudo isso a internet está recheada de blogs e sites com temática gay, o Gayload conta com link para séries e filmes só com temática LGBT, o portal A Capa anda bem atualizado e tem inclusive uma versão física que pipoca sem muita periodicidade. Com uma boa googlada também pode se  encontrar vários endereços bacanas.

Como já falei e vou repetir outras vezes cada situação é uma situação e no meu caso eu primeiro estive de estar confortável sendo gay (o que levou alguns anos) para depois dizer aos meus pais – segui uma ordem que é bastante comum: contei antes aos amigos, depois para alguns familiares e por fim aos meus pais a quem considerava as pessoas mais difíceis de falar mas para os que tem mais confiança vale ter a conversa mais cedo, apoio nunca é demais e se vier dos pais é ótimo. Caso ache que não vai rolar se firme, se prepare psicologicamente, tenha sua vida, faça amigos e namore, com essa bagagem de vida como qualquer outra bagagem é mais fácil mostrar para os seus pais que sua vida é exatamente como a de um filho heterossexual e não se deixar abater por possíveis colocações absurdas.

Você não é estranho, diferente ou doente

Os termos estranho, diferente, doente, perdido, pecador, nojento, promiscuo, entre outros podem aparecer nas conversar sobre o tema mas lembre-se você não é nada disso (pode até ser uma coisa ou outra mas dificilmente terá relação com a homossexualidade hahaha) então fique calmo e SEMPRE se lembre é muito difícil também para os seus pais.

É muito importante lembrar que a maioria dos pais tem altas expectativas para seus filhos e no momento daquela conversa a maioria delas cai por terra: o que pensaram mesmo que inconscientemente do que seria sua vida familiar e profissional não existe mais, pelo menos não no formato esperado.

Ainda temos o medo: o medo de um filho perder oportunidades na vida por ser gay, o medo das doenças (lembre-se o estereótipo gay é promiscuo então é uma das primeira coisas que vem a cabeça), o medo da agressão física que tem sido manchete nos jornais. Nas famílias religiosas temos ainda o medo da não aceitação por parte da comunidade que faz parte. Ser gay não é uma escolha porém é preciso lembrar que nenhum pai quer para o filho o que é mais difícil e ser gay é ainda bastante complicado devido o preconceito da nossa sociedade.

Não force nada que não é necessário

a hora de falar evite termos como viado, bicha, insinuar que você faz sexo ou falar sobre relacionamentos: passos de bebe são fundamentais – você já está tomando o primeiro, deixe que eles se acostumem com tudo e a partir daí passe a compartilhar mais da sua vida – tudo isso leva tempo, pode ser meses, anos ou décadas.

Existe o processo que chamo da meia aceitação: “você pode ser gay, eu te amo, mas não falaremos sobre isso” – esse processo é horrível mas real, então tente se acostumar e fique na expectativa de que um dia vá melhorar.

Uma tendência é ouvir o “onde foi que eu errei” e “você anda com as pessoas erradas” então deixe claro que não existiu um erro e que homossexualidade não é algo influenciável e evite qualquer tipo de informações que possa causar choque.

Na ânsia de descobrir mais sobre os filhos alguns pais tendem a ser invasivos então a dica prática: limpe o histórico do computador, as mensagens de celular – caso tenha uma vida sexual ativa peça para um amigo ou o peguete (ou a peguete) guardar as camisinhas, lubrificante e qualquer outro indicio de atividade sexual – Para grande parte dos pais é complicado a ideia de um filho ou filha fazendo sexo, com pessoas do mesmo sexo fica um pouco mais tenso então vale evitar principalmente no começo.

Edith Modesto cita as fases da aceitação partindo da “descoberta” passando pela “perda” , “luto”, “fuga”, “negação”, “atitudes de defesa”, “conformação” e por fim “aceitação” – nem todos os pais passam por esse processo todo e alguns não chegam ao final, a ideal aceitação e muitas vezes essas fases se embolam todas então não fique tentando entender se seus pais te amam ou te detestam, se tem orgulho ou medo porque provavelmente estão experimentando todas essas sensações juntas. Tente ao máximo estar calmo e seguro – evite sair de si, gritar e chorar – a saída do armário é o momento deles surtar se você surtar junto complica ainda mais.

Em geral noto que são muitas conversas, eu ainda as tenho mesmo depois de 3 anos então a maioria dessas dicas são para todas elas que com o tempo vão ficando mais racionais e menos emotivas.

Temos também a questão do casamento – no caso de pais casados pode acontecer de cada um ter uma reação – um de defesa e um de ataque por exemplo então pense que difícil deve estar sendo para seu pai ou sua mãe: não querer que um filho ou filha se machuque mas perceber a dor do seu parceiro ou parceira – algum dos dois ainda pode ser sentir traído duplamente – pelo cônjuge e pelo filho! Isso raramente passa pela nossa cabeça na hora mas deveria.

Para pais separados esse conflito pode ser mais fácil devido a distancia física ou mais difícil dependendo de como o casamento acabou, jogos de culpas podem se iniciar então vale a você decidir se ira reunir ambos para contar ou se vai faze-lo individualmente.

Caso tenha apenas um dos pais certifique-se que este terá alguém para conversar caso seja necessário – sendo sozinho a sensação de “onde foi que eu errei” pode ser pior.

Por fim temos os irmãos – podem ser muitos, poucos, mais novos ou mais velhos. Aqui é mais complicado ainda em relação a possíveis reações afinal são muitas variantes e vai depender de como é sua relação com eles e fale quando se sentir pronto.

Situações extremas

Infelizmente as vezes as reações são piores que a esperada: casos de agressão e expulsão de casa acontecem com certa frequência – caso você ache que pode acontecer já fale com algum parente ou amigo que possa oferecer um teto por alguns dias. Na verdade essa é uma dica que vale para todos: vai sair do armário então ligue para alguém de confiança caso seja necessário sair de casa por algumas horas ou dias.

Ainda na linha problemas: tenha sempre alguma grana guardada e se prepare para retaliações financeiras – na tentativa de ajustar a situação é possível que todo auxilio emocional ou financeiras seja cortado, se você tiver certa segurança pelo menos na segunda área será ótimo.   

Existem também caso de internações e busca por médicos –as internações tem se tornado mais raras afinal homossexualidade não é considerada mais doença desde a década de 70 e nenhum médico profissional trataria como tal. Caso seja oferecido sessões terapêuticas, individuais ou familiares aceite – terapia nunca é de mais.

Em casos de intervenções religiosas cabe a você estabelecer os limites – se achar que não faz mal participe sempre lembrando que são valores diferentes, você não precisa acreditar naquilo tudo mas também não é saudável confrontá-los – se não quiser participar converse com seus pais e explique que não quer.

Para os casos extremos em São Paulo existe o Cravi – Centro de Referência e Apoio a Vitima na Rua Barra Funda, quee funciona de seg a sex das 9h as 18h e basta marcar hora pelo (11) 36667775 / 7960/ 7334 – e o Decradi – Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância na Rua Brigadeiro Tobiar, 527 3º andar na Luz e funciona das 9h as 19h de seg a sexta – Esses e outros serviços estão listados no site do Cads – Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual

 Já o 141 é o serviço telefônico do Centro de Valorização da Vida que conta também com serviço de chat, postos físicos, skype, e-mail entre outras opções – O CVV é um programa anti suicídio, algo que passa pela cabeça de vários jovens nesse momento. 

Nunca precisei de nenhum desses serviços então caso você faça uso e queria compartilhar como foi a experiência fique a vontade.

Este post não está nem de longe cobrindo tudo que pode acontecer e muito menos tentando estabelecer regras para a situação de contar aos pais que se é gay – ele é um apanhado de experiências e de relatos de amigos e coleta de referencias então caso perceba algum erro sinta-se a vontade para comentar aqui.

E por fim falo por experiência própria – talvez contar para os seus pais, mesmo tendo absoluta certeza que eles já sabem seja a coisa mais difícil que você vai fazer, mas será também uma das melhores – realmente um peso sai da suas costas e a vida fica relativamente mais verdadeira e se precisar de ajuda peça, não tenha vergonha e principalmente seja sincero com você mesmo e com eles.   

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