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Bom, caso tenha chego neste blog em busca do que fazer ao descobrir que eu seu filho ou filha é gay já estamos no caminho certo: você buscou ajuda e principalmente se informar.

E antes de qualquer coisa queria reforçar algo que você provavelmente está ouvindo mas é difícil acreditar – Você não fez nada errado, e neste post espero tentar tornar isso mais evidente

A situação em que um individuo assume a sua sexualidade para outras pessoas é chamada popularmente de “sair do armário” e nos trás a questão do porque ter que assumir? Só isso já poderia indicar que se trata de algo errado ou ilegal porém não é tão simples: nossa sociedade é composta em grande parte de heterossexuais (pessoas que se relacionam com o sexo oposto, chamados também HT) e a nascer homossexual (pessoas que se relacionam com o mesmo sexo, gays)  um individuo está automaticamente fora do padrão, o que não indica que está errado ou doente.

Digo nascer homossexual porque acredito que se nasce gay e pesquisas recentes estão confirmando isto, nessa matéria da revista superinteressante é possível ter uma panorama bem didático da homossexualidade citando inclusive a data em que homossexualidade deixou de ser considerada doença na década de 70.

Gays não escolhem ser gay

Essa é a primeira coisa que precisa ficar claro ao saber que um filho é gay – não foi escolha dele – ser gay não é uma opção e sim uma característica, se genética ou psicológica só o tempo dirá.

Sei que é difícil para heterossexuais entenderem isto, então peço que dessa dificuldade seja feito um exercício: se para você é difícil imagine para uma criança ou adolescente perceber que ele sente atração e ama quem, segundo os padrões, não deveria. É muito difícil tanto que o índice de suicídio nos EUA entre jovens gays é 5 vezes maior que entre os heterossexuais.

Quando tudo muda

Ao conversar com amigos gays e alguns pais que passaram pela situação notei que após receber a noticia que a sensação de medo passa a dominar o momento. Edith Modesto, uma especialista em questões de gênero cita no livro “Mãe sempre sabe?” o que chama de fases da aceitação, partindo da “descoberta” e passando pela “perda”, “luto”, “fuga”, “negação”, “atitudes de defesa”, “conformação” e por fim “aceitação” – nem todos os pais passam por esse processo todo e infelizmente alguns não chegam ao final, a ideal aceitação e muitas vezes essas fases se embolam todas, então saiba que sua confusão é normal e existe o outro lado, o lado que está tentando ser aceito.

Tornando genérico o processo percebo duas grandes perguntas que regem o momento:

– Porque isso aconteceu com o meu filho e o que será dele daqui pra frente?

– O que posso fazer para mudar a situação?

Porque isso aconteceu com o meu filho e o que será dele daqui pra frente?

Sim, o medo do preconceito na vida, no trabalho, a possibilidade dele não formar uma família, a promiscuidade que envolve o mundo gay – todos esses medos são reais mas tenha calma. Com o tempo os jovens passam a saber lidar com o preconceito e se tiver os pais ao lado fica mais fácil ainda.

Em relação a trabalho o mesmo acontece e antropolociamente falando, gays tem se mostrado profissionais de mais sucesso que heterossexuais, grande parte pelo grau de instrução: pesquisas mostram que ao se perceberem “diferentes” gays se dedicam mais ao estudo e suas áreas de especialidade por acreditarem que sendo bons profissionais terão menos problemas e o grau de escolaridade é maior que entre os heterossexuais.

No caso da constituição da família, o discurso é o mesmo: dois homens e duas mulheres constituem um casal mesmo que não legalmente e podem com o tempo através da ciência ter filhos ou optar pela adoção mas isso é algo que vira a tona mais pra frente.

Por fim temos a questão da promiscuidade gay: a AIDS na década de 80/90 ainda assombra o imaginário popular assim como a visão de permissividade que envolve os homossexuais – Hoje os relacionamentos gays tendem a ser tão estruturados como os heterossexuais – existe desvios, casais polígamos, traições e jovens fazendo sexo sem proteção? Sim, mas nada diferente de todos os casais e jovens do planeta.

O que posso fazer para mudar a situação?

Como já falei aqui em termos médicos não existe o que ser feito por homossexualidade não ser uma doença portanto se você sentir a necessidade de uma opinião clinica recomendo que recorra a um psicólogo seja apenas para seu filho – filha, seja para você ou seja para a família todas – a terapia é um processo de conhecimento e não visa tratar apenas de distúrbios e pode vir a calhar na jornada de aceitação.

Caso tenha alguma religião de sua preferência cabe a você saber se sente-se confortável em compartilhar isso no espaço da fé – em geral religiões contam com uma visa negativa da homossexualidade mas sei a importância que a religião tem na vida de grande parte dos brasileiros. Converse com seu filho e se ele achar bom partilhar desse lado mal não fará, mas esteja sempre aberto.

A culpa é do meio que ele vive e seus amigos.

Essa é outra máxima comum : “você é assim por causa dos amigos, internet, televisão etc.”  Desculpe informa-los mas o primeiro gay que conheci foi 5 anos depois de me descobrir e 1 depois de assumir para os amigos. O que acontece é que ao se relacionar com outros gays as pessoas tendem a se tornar mais confortáveis. Demorei alguns anos para me sentir bem em falar normalmente sobre o tema e o mesmo acontece com os meus pais e será assim com você.

Privar seu filho de sair, conversar com os amigos e mudar sua rotina tende a piorar a situação, afinal estará o privando de compartilhar um momento difícil e buscar ajuda. O mesmo vale para você, converse o máximo que quiser e puder, quanto mais se falar sobre o tema mais fácil fica.

Don’t ask, don’t tell    

A pratica do “não perguntamos e você não fala sobre isso” ficou conhecida no exercito norte americano como uma política que permitia não oficialmente homossexuais assumidos nas forças armada e é bastante comum no relacionamento de pais com filhos gays.

São raros os casos em que um filho assume mesmo quando interrogado porque se estivesse 100% confiante teria contado, então não se sinta traído caso tenho tido uma resposta negativa e tempos depois ouvir a confirmação.

Essa política que chamo de meia aceitação onde você sabe que seu filho é gay mas não quer que seja falado sobre isso pode durar anos e até uma vida toda e com certeza é a forma mais fácil de se lidar com a homossexualidade mas no processo poderá perder momentos importantes da vida do seu filho/a – como seu primeiro amor ou até seu primeiro rompimento (quando mais precisaria de você) e coisas como casamento, a decisão de constituir uma família entre outros.

A meia aceitação distancia ainda mais você do seu filho/a então tente ao máximo se esforçar para entender como natural a sexualidade dele/a .

E meu casamento?

Em uma grande generalização existe 3 variações de pais: os casados, os separados e os sozinhos – no caso dos casados pode ser complicada a sensação de estar dividido entre ajudar o filho e entender o cônjuge assim como a sensação de não aceitar a situação da forma que o cônjuge fez. Nesses casos é muito importante um alinhamento para não confundir mais a situação já delicada – converse com o seu marido / esposa a sós e depois com o filho. Para o caso dos separados depende bastante de como foi o termino do casamento e também como o filho contou – caso tenha feito para os dois simultaneamente a dinâmica é a mesma, conversem entre si e a partir daí falem com o filho, do contrario pergunte para o filho do porque a noticia foi dada apenas a você e reflita se quer comunicar seu ex – cônjuge ou se deixará a cargo do seu filho. No caso de ser pai solteiro vale conversar com familiares e amigos, afinal não é uma fase fácil de levar sozinho.

Onde posso procurar ajuda?

A professora Edith Modesto citada acima criou a 13 anos o GPH – o grupo de pais de homossexuais que presta apoio a pais através de reuniões e via e-mail. E em SP temos o CADS – Coordenadoria da diversidade sexual que presta apoio a pais e jovens gays.

Espero que de alguma forma consiga ter explicado e ajudado vocês e que saiba que nada melhor que o tempo e a paciência para fazer tudo se acertar novamente🙂