Fui criado em um ambiente extremamente popular e culturalmente plural: vivi até os desbravadores 7 anos em um bairro periférico chamado Freguesia do Ó, mais especificamente no  BNH, que era em sua origem, quando minha vó comprou a casa, um conjunto habitacional – na época as residências não eram idênticas como hoje então o espaço era um bairro como outro qualquer.

Entre meus vizinhos; uma família baiana financeiramente ascendente, uma negrissima família praticante de candomblé, uma esquizofrênica que rezava a lenda ficará louca após um estupro, uma avó que cuidava da neta bastante problemática (minha primeira melhor amiga) a qual a mãe se suicidara, um casal de idosos onde o marido vivia de concertos de máquina de lavar roupas, uma já estabelecida família de filhos letrados, um senhor obeso que cuidava da esposa louca e filha deficiente mental e muitas outras riquíssimas figuras.

Não raramente ouvíamos boatos de eventuais prisões e mortes entre os conhecidos,e na mesma proporção de sucessos: fulano conseguirá um bom emprego, ciclano passara na faculdade. E tudo sentido como se as tristezas ou alegrias fossem nossas e em parte eram.

Vizinho naquela época não era apenas o de porta, conhecíamos  os moradores de pelo menos 3 ruas acima e 3 ruas abaixo e não raro perambulávamos pelas residências, de todos, sem exceção. Meus pais e avós acompanhavam tudo obviamente mas nunca nos proibiram de adentrar nos lares alheios que sempre contava com alguma criança para desbravar junto.

Essa pluralidade levei pra vida, aprendi a conviver com diferentes tipos de pessoas e sou grato por isso, assim como o hábito de estar na casa dos outros, sou entre meus conhecidos um dos poucos que visita amigos em suas casas, que ainda sabe o nome do pai, da mãe e dos irmão, as vezes até dos primos e que bem, abre a geladeira e se serve.

Com a morte de minha vó mudei-me oficialmente, para a mesma Freguesia do Ó, porém em um condômino de prédios, meus medos aumentaram e os amigos diminuíram, assim como os conhecidos vizinhos e aos 11 anos migrei para o bairro ao lado, Pirituba, em um condômino composto de 27 edifícios e apesar das tentativas obtive um êxito muito baixo em novos companheiros e companheiras para brincadeiras, me tornei nessa fase mais do que nunca uma criança adulta, de um pedantismo que até hoje me envergonho.

Moro ainda nesta micro cidade, mais de 12 mil moradores e ouso dizer não conheço nem uma dúzia de pessoas, só não são menos por conta da relação que tive com a igreja até cerca dos 15 anos de idade e me entristeço com isso.

Durante todos esses anos que estou aqui fui incentivado cultural e educacionalmente pelos meus pais: estudei em bons colégios e me graduei pela FAAP, uma das mais caras faculdade do pais com o auxilio de uma bolsa de estudos e muito trabalho por parte da minha mãe e pai.

Conquistei coisas maravilhosas, aprendi muito e trago até hoje grandes amigos desses ambientes mas sinto que em algum momento perdi a essência que me fazia vivo. A pluralidade do popular deu lugar ao deslumbre do capitalismo, me tornei arrogante e vazio e só no finzinho da graduação me dei conta disso e hoje, 2 anos após o saudável distanciamento da “elite pensante do pais” como um professor orgulhoso bradava percebi que minha felicidade está no povo.

Não me entendam mal, ainda gosto de dinheiro e bastante, de bons serviços, de boas roupas, de conforto e boas experiências mas percebo cada vez mais que as criticas que com os anos passei a tecer contra o popular nada mais era do que inveja daquela felicidade genuína, daquela habilidade de estar tão bem com tão pouco.

Noto que pessoas pobres, que constituem o popular, são agraciadas com uma sabedoria que nem décadas de estudos podem ensinar, noto que pessoas simples são leves, tem muitas vezes olhos tristes, carregam sofrimentos mas acima de tudo possuem orgulho, honra, ética e dubiamente felicidade.

Quero com os anos voltar a ter contato com esse mundo e não raro quando digo isso as pessoas me falam para fazer um trabalho voluntário, mas elas não entendem, um trabalho voluntário consiste em caridade, o que não é o caso, pessoas pobres, pessoas simples, não são carentes, apenas tiveram menos oportunidades financeiras e de estudo ou até falta de sorte porque não?

Notei que passei muito tempo querendo mudar o mundo, mas o que precisava na verdade era identificar que o que entendia por mundo estava errado, que essa ignorante bolha composta pelas vergonhosas classes média e alta do qual faço parte que é infeliz, que quer o mal, que julga erroneamente e que é esse pedacinho do mundo que deve ser mudado.

Não faço aqui uma ode a pobreza, ao socialismo ou ao igualitarismo, mas começo enfim a tecer um pensamento que espero levar a diante, que irei chamar de realismo popular: a sabedoria oriunda da realidade dominante do país, o popular.

E que venham os proximos textos 🙂

Anúncios