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Em 10 de junho de 2013 recebi uma notícia: um companheiro de trabalho gay havia sido agredido por sua orientação sexual quatro dias antes, em uma balada da qual sou frequentador assíduo.

O local é o clube Yacht, uma das casas do grupo Vegas, lugares que venho frequentado há cerca de seis anos, e que me trouxeram muitos amigos e conhecidos, entre DJs, promoters, funcionários e público. Muitos, inclusive, se tornaram pautas do meu trabalho, que retrata comportamento LGBT.

A festa em que aconteceu a agressão é promovida por um conhecido, que já me chamou para discotecar em uma de suas festas e por quem tenho muito respeito.

Tive, portanto, a difícil missão de relatar e noticiar um fato extremamente desagradável onde eu tinha ligação com todas as partes, inclusive com o agressor, já que provavelmente, ele já me atendeu em algum momento.

Porém, não me lembro do agressor, porque ele é auxiliar de limpeza e, portanto, aos olhos de muitos de nós, invisível.

Tento constantemente prestar atenção em todas as figuras que me cercam, principalmente essas que desde sempre aprendemos a ignorar. Me esforço ao máximo para saber o nome e um pouco daquela vida e. Muitas vezes, meu trabalho ajuda.

Exemplo disso foi a matéria que fiz entrevistando seguranças de baladas gays. Propus essa pauta porque muitas vezes perguntei, curioso, o que aqueles trabalhadores, na maioria de suas vezes simples, pensavam ao estar em meio a um público considerado anormal por muitos.

A reposta sempre me deixava feliz: “Gostamos de trabalhar em balada gay porque aqui não tem briga, as pessoas são mais educadas, mais tranquilas”, afirmavam os seguranças.

Porém isso não é um censo comum e aquele auxiliar de limpeza do Yacht que agrediu meu colega de trabalho é a prova disso. Pelos relatos do agredido, um fundamentalismo religioso era fundo da homofobia que levou à agressão. Mas como um fundamentalista religioso homofóbico estava trabalhando em uma balada dedicada ao público gay?

A resposta é tristemente simples: assim como para mim, e certamente para você, essa pessoa é invisível aos seus contratantes.

O auxiliar de limpeza é um funcionário terceirizado, só é chamado quando a casa espera uma lotação maior que a habitual, e o dono do grupo, Facundo Guerra, estabeleceu uma política que em teoria é incrível, mas na prática, infeliz: “Assim como nós não perguntamos a orientação sexual dos funcionários, não perguntamos a orientação religiosa “.

Concordo que orientação religiosa não deve ser levada em conta, mas se um funcionário se sente constrangido ou é contra um determinado grupo de pessoas, não deve ser contratado.

Essa política de não falar sobre, e também uma postura das casas para com o público: o Yacht não se define como uma casa gay, apesar de contar com programação de quarta à sábado, e durante esses 4 dias apenas a sexta – feira ser dedicada a uma festa hétero.

A justificativa sempre foi de que ao “rotular” o clube, torna-se o espaço um gueto gerando assim preconceito. Entendo o ponto, e vendo os constantes discursos de Facundo tendo a acreditar, mas se tratando de negócios, pode-se desconfiar que é uma jogada de marketing: sem rótulos não se perde nenhum público. 

Infelizmente vivemos em um mundo em que é preciso se firmar, se firmar como gay, como negro, como mulher, porque existe SIM o preconceito, e enquanto não se confrontar, enquanto não se debater, escancarar essas feridas, essa herança patriarcal e escravocrata, nada vai mudar.

Chegamos então ao invisível: o auxiliar de limpeza é também o que vê duas pessoas entrando no banheiro para dar uma rapidinha (seja gay ou hétero), que vê gente usando droga, passando mal, ou simplesmente fazendo seu xixizinho, o que é por si só de uma intimidade absurda. Até por essa exposição absurda aprendemos a ignorá-los, o que é extremamente cruel.

Ninguém merece ser invisível, e essa anulação é tão perigosa que faz com que ocorra o que ocorreu: um indivíduo homofóbico foi contratado para trabalhar em um local gay.

Vale ressaltar que em nenhum momento defendo o agressor, essa invisibilidade cruel não é justificativa para homofobia, para agressão e não é passe para nenhum tipo de atitude escrota. 

Por fim, ficam os pedidos:

– Facundo, tire suas casas do armário, precisamos delas cada vez mais

– Equipe do Grupo Vegas, entendam que é preciso olhar humanamente para cada funcionário e sim, é preciso de treino para todos.

– Pessoas, olhem umas pras outras, agradeçam e tentem ao máximo perceber quem está no seu entorno. Não faça de ninguém alguém invisível

– Denunciem, reclamem, libertem-se!