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Quando rolou aquele lance do universitário que se fez passar por um candidato do Enem, pipocou na minha timeline o seguinte texto (que resumo bastante)

“Se vejo um leão, ele tem juba de leão, rugi como um leão, come os animais que o leão come e pergunto: você é um leão? E ele responde sim, sou um leão. Porque desconfiar que ele não era um leão?”

Isso ficou na minha cabeça, nunca entendi porque o programa Pânico gostava de enganar as pessoas, nunca curti ações de publicidade velada. Gosto de honestidade.

Algumas vezes, sem maldade alguma como é o caso do universitário, do pânico ou dos publicitários, acabamos sendo tomado pelo emocional.

Foi o que aconteceu com o caso do Kaique. Ele foi encontrado com uma região em que quase mensalmente tomamos conhecimento de um caso de homofobia. Ele era um jovem, negro, gay, sozinho, em uma sociedade em que jovens, negros e gays são perseguidos e agredidos por serem quem são.

Ai tivemos uma policia que automaticamente classificou o caso como suicídio, veja bem, se nós automaticamente pensamos em homofobia porque eles não? Depois disso, detalhes dos familiares e amigos dizendo que ele não teria motivos para se matar, também informações sobre como estava o corpo, e uma policia lenta que não dava informações.

Com medo, revoltados e tristes nos mobilizamos, usamos o caso do Kaique para pedir a criminalização da homofobia, de novo veja bem, a criminalização de um crime!

Agora, mesmo que não concluída, sabemos que existem grandes chances de Kaique ou ter caído ou pulado do viaduto (quebrou os joelhos, não existia uma barra e sim um osso que saiu, e faltavam dois dentes e não todos, todos fatores que sugerem queda ou suicídio).

Sabemos também que ele tinha um diário e escrevia coisas tristes. Mas oras, que adolescente não tem um diário com coisas tristes escritas? Sabemos que estava bêbado, e de novo, que adolescente não fica bêbado?

Se o Kaique caiu, temos uma tragédia, um exemplo de como a vida não vale nada. Se ele foi espancado, que mundo cruel, que coisa estupida. Se ele se matou, que tristeza ninguém próximo a ele não ter conhecimento de sua depressão, independente de seus motivos.

Mas nada disso invalida o protesto pela criminalização da homofobia, uma causa necessária, nada disso invalida nossa revolta em relação a tantos outros jovens, gays, negros (e tantas outras minorias). Nada disso foi em vão.

Lembro que amigos, família e conhecidos afirmaram que ele sempre foi resolvido com sua sexualidade, tinha aceitação da sociedade e dos familiares, ou seja, é preciso cuidado em transformar isso em um caso de suicídio por falta de aceitação. Neste caso em especial não foi a questão, mesmo sabendo de tantos outros.

Na verdade não precisamos transformar a morte de Kaique em nada que não seja uma lição: uma lição de ética jornalística, de opinião pública, de conhecimento das nossa próprias emoções, de senso de justiça, e de humanidade. De como ficamos comovidos por uma tragédia, seja ela qual for (homofobia, acaso ou suicídio).

No fim das contas é só quando nos comovemos lembramos que somos humanos e começamos enfim, a mudar alguma coisa.