Por algum motivo que me foge agora eu aceitei ir viajar com os meus pais para Campos do Jordão. Não me entenda mal, apesar de ser uma família de gênio forte com o passar dos anos eu aprendi a conviver e até gosto de viajar junto com eles, o problema foi o destino.

Ficamos hospedados em Santo Antônio do Pinhal, uma cidade vizinha deliciosamente pacata. Mal cheguei e já fomos para Campos e um monte de sensações voltou. Aquelas pessoas com pele (falsas e originais) os carros importados, o ar de superioridade. Uma ostentação incomoda e bastante triste.

Mas ok, a comida poderia ser boa e teriam artesanatos, algo que me é muito caro nesse momento da vida, além de algumas apresentações musicais. O problema é que logo de cara me deparei com um palco estampado com logomarcas do Bradesco Prime, muitos logos, muitos mesmo, sem espaço para uma arte sequer. A atração: um coral jovem do próprio banco apresentado pelo Otaviano Costa.

Na hora que o apresentador entrou em cena minha mãe gargalhou. O motivo é basicamente que se eu tivesse um passe livre para fazer alguém sumir da terra essa pessoa seria o Otaviano Costa, mesmo sabendo que seria uma pessoa melhor se sei lá, eliminasse o Malafáia ou algum ditador africano por exemplo.

O coral foi ok, mas as piadas e a efusividade de Otaviano fizeram com que eu quisesse arrancar meus ouvidos e cozinhasse em óleo quente. Acabado o desespero fomos almoçar, depois de um conflito para chegar no restaurante acabamos em um italiano mediano. A dificuldade se deu, além da diferença de paladar, pelo excesso de música ao vivo nos restaurantes da cidade.

Sim, sou uma pessoa que vem tentado ser melhor, mas além de ostentação vazia e do Otaviano Costa eu simplesmente odeio música ao vivo em restaurantes. Gosto de comer com calma, gosto de conversar, porque atrapalhar isso com alguém gritando Ana Carolina ou Djavan? Porque estragar algo tão prazeroso como uma refeição com agudos desafinados?

Quando achei que tudo estaria perdido a Carol e o Eduardo surgiram para me salvar. De volta a Santo Antônio do Pinhal o casal de amigos que vive na cidade me presenteou com queijos, vinhos e um belíssimo papo, sem nenhum som ambiente.

De lá partimos para um espetáculo. Uma apresentação de dança da Cia Mulheres em Movimento baseado em “Mulheres que Correm com os Lobos”. Confesso que a perspectiva de uma apresentação em um espaço de nome Casa Girassol de um coletivo sustentável vegano me parecia uma cilada do nipe a Leona Cavalli gritando pelada por 10 horas no palco do Oficina, uma experiência que espero nunca mais repetir na minha vida.

Ninguém ficou pelado, porém, sim, era um espetáculo interativo e após a apresentação das cantoras, a plateia reconstruiu uma das cenas de Vasalisa – a Sabida. no momento mais de humanas que já presenciei na vida. O legal, porém, foi a falta de obrigatoriedade. Apenas eu o Eduardo não participamos mas observamos e foi lindo.

Terminada a apresentação percebi que aquele espaço não é pra mim, mas entendi o motivo pelo qual a tal turma de humanas me toca tanto. O porque eu sigo uma filosofia de vida mais esquerdista e meu incomodo com as pessoas de Campos de Jordão.

Viver é uma merda, mas existem várias formas de viver essa merda de um jeito diferente, e tenho certeza absoluta que aquelas pessoas do espetáculo sentiram muito mais, ouviram muito mais, respiraram muito mais do que a moça com a bolsa de marca que cruzei pela manhã.

O problema não é o dinheiro, não é a ostentação em si, é o desprezo com o entorno, o medo de olhar, o medo de sentir. Quem sabe um dia a gente, essa gente que olha pro lado consiga mostrar isso para quem se recusa. Com certeza esse dia vai ser muito melhor que o dia de hoje.

Advertisements